| especial literatura |
janeiro de 2010 |
As Áfricas de Le Clézio
Muitos dizem que conhecemos um autor através de sua obra, tentaremos neste perfil trazer alguns traços deste grande autor contemporâneo através de duas de suas obras. Uma delas é O Africano, uma pequena autobiografia do autor lançada em 2004.
No livro, Le Clézio traz a tona lembranças suas e lembranças que precedem seu nascimento, para entender sua própria vida e história. Ele nos leva a uma viagem que retoma sua vida, do seu nascimento em meio à guerra, da sua infância na África, até o momento de seu retorno à Europa.
Nascido em Nice em 13 de abril de 1940, Jean-Marie Gustave Le Clézio viveu o horror da II Guerra Mundial em sua infância, em uma França ocupada pela Alemanha, onde ele, seu irmão, sua mãe e seus avós procuravam diferentes formas para sobreviver. Durante esses anos, seu pai atuava como médico na região entre o Marrocos e a Nigéria.
Com o fim da Guerra, Le Clézio e sua família partem para o continente africano, fato este que irá modificar sua vida. Chegando à Nigéria, o autor ainda criança conhece um pai austero com manias militares, diferente dos homens que via no apartamento burguês de sua avó. O continente africano se impõe a Le Clézio como um gigante, vivo e pulsante, com sua nudez, odores, insetos e hábitos nunca antes vividos ou vistos. Pela primeira vez (e talvez pela última) Le Clézio experimenta a verdadeira liberdade.
Para contar sua vida, Le Clézio recorre a história do pai, homem que em 1928 abandona a Europa em direção à Guiana Inglesa na América indígena, e anos depois, parte para o continente africano como voluntário das forças coloniais.
O autor herda do pai a paixão pelo continente, assim como a repugnância e o asco a todo tipo de colonialismo. O pai de Le Clézio aparece como uma figura misteriosa: em um primeiro momento, um homem jovem que procura a aventura e, ao lado de sua mulher, desvenda um continente selvagem; depois, separado de sua família e quebrado pela guerra, passa a ver o mesmo continente que lhe propiciou tantas alegrias se transformar em uma prisão, em uma fortaleza que fez dele um estrangeiro em seu próprio país, e um estranho para os próprios filhos.
Depois de anos vividos no continente africano, o autor volta à Europa, e se sente como um forasteiro, carregando este fardo por toda sua vida. Após anos de reflexão, percebe que o verdadeiro africano nesta história não era ele, e sim seu pai, que se sente ainda mais distante da realidade que ele próprio. Sob a luz deste fato, Le Clézio tenta neste pequeno livro autobiográfico entender e reescrever sua própria história. Conseqüentemente, junto aos relatos da vida do autor, assistimos também o desenrolar da história de um continente africano desconfigurado pelo colonialismo, esquecido por aqueles que o escravizaram, com feridas profundas que perduram até hoje.
Leia mais sobre Le Clézio e suas obras na edição #02 da Revista Zás!
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J. M. G. Le Clézio
Considerado por grande parte da crítica literária como um dos maiores autores de língua francesa vivo, Le Clézio ainda é um desconhecido por muitos apreciadores de literatura no Brasil. Especialista em história mexicana e autor de mais de 30 livros, dentre eles romances, novelas, memórias, diários de viagens e ensaios, Le Clézio possui apenas 5 ou 6 livros publicados no Brasil. Mesmo após vencer o Nobel de Literatura em 2008, o autor ainda não faz presença em nossas livrarias.
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