Entrevista com a banda Ócio

Eu costumo receber vários discos de bandas independentes do Brasil. Até que, certo dia, recebi um pacote diferente. Vendo o endereço vejo que é de uma banda de Londres. Claro que achei estranho! Afinal não tinha noção de que o Rockazine estava circulando em solos europeus. O disco que estava no pacote era de uma banda que eu não conhecia, chamava-se Ócio. Como todo material que eu recebo ele foi para a avaliação. Não escrevo do que não gosto. Também não acho legal ficar falando mal de certas bandas porque gosto é algo muito subjetivo e, além disso, não sou nenhuma sabe tudo de crítica musical. Por isso, no Rockazine seguimos o principio de escrever no que acreditamos. É assim com todas as bandas.

Mas não é que o som daquele CD vermelho era bom! Além disso, a banda me despertou a curiosidade de jornalista de saber como é a cena fora do Brasil.

Formada por Daniel Furlan (vocal e guitarra), Rod Larica (baixo e vocal) e Jaana Mae (vocal, bateria, flauta e percussão) a banda Ócio mostra no CD Guilty Beat um trabalho maduro e bem desenvolvido. O disco Guilty Beat é composto por dez faixas. O vocal é compartilhado pelas vozes de Daniel Furlan e Jaana Mae.

Uma parte do álbum foi gravada em Fradinhos, Vitória, no estúdio Casa da Floresta, com o baterista Patrick Preato. Ele deixou a banda no início de 2009. A outra parte do disco foi gravada no Urchin Studios, em Londres, dos ingleses Matt Ingram e Dan Cox, responsáveis pela produção de Guilty Beat.

Entretanto, este não é o primeiro disco do grupo. Em 2006 lançaram Mood Swings. Nessa época ainda moravam em terras tupiniquins. Não houve um planejamento para mudar de país, eles foram fazendo shows e acabaram ficando de vez. Mas esse tempo fora resultou em experiências bacanas e possibilitou outra visão do cenário musical. Na entrevista abaixo você vai entender a opinião deles sobre esse assunto.

Karina: O que levou a banda a deixar o Brasil e se mudar para Londres?
Daniel:
Na verdade não foi nada muito planejado… Sempre tivemos vontade de viver essa experiência e teve uma hora que sentimos que o momento era bom e viemos. Começamos a fazer uma boa sequência de shows e fomos ficando.

Karina: Como avaliam o cenário de música independente no exterior? Existe apoio, bons festivais e uma união de músicos voltados para cena alternativa?
Daniel:
Há um mercado muito maior do que eu estava acostumado, mas também há muito mais bandas, então tem que ralar muito aqui também. O bom é que as casas de show não se comportam como se estivessem fazendo favor pras bandas. Apesar de ser óbvio, é muito mais claro aqui que as bandas são necessárias pra fazer essa cena toda girar. Na Inglaterra tem muito festival, quando chega o verão é festival de rock pra tudo quanto é lugar, rock alternativo não é coisa de uma parcela pequena e elitizada da população, como no Brasil. Mas os melhores festivais que a gente tocou foram fora da Inglaterra. Em relação às bandas, Londres é bem cada um por si, salvo raras exceções. Isso é bem escroto.

Karina: O que é ser independente para vocês?
Daniel:
É poder fazer o que quer, mas não ter o suporte necessário pra fazer o que quer.

Karina: Vivem financeiramente de música?
Daniel:
Não. Eu por exemplo também traduzo videogame. Apesar daqui ter várias vantagens que eu citei antes, de uma forma geral as bandas independentes só tendem a se ferrar, acho que em qualquer lugar. Bonita mensagem, né? Mas é isso, o sistema monta em cima por que sabe que tem gente louca pra aparecer e faz o que faz por amor. Quando veem que você faz por amor, é aí que seu ponto fraco ficou exposto. Por isso sempre tento passar a impressão que odeio o que estou fazendo.

Karina: Como avaliam o cenário da musica independente no Brasil?
Daniel:
Posso falar mais de Vitória, que era onde a gente morava. De uma forma geral, parecia haver um interesse preguiçoso em bandas autorais, com muitas bandas cover e DJs de hits, e a maioria das pessoas parecia ser dotada de uma frouxidão cultural, o que mantinha as coisas daquela forma. Mas das últimas vezes que estive lá, parece ter ficado mais interessante, não sei se é impressão, mas acho que várias bandas autorais com uma diversidade de estilos maior foi aparecendo, muitas vezes com um público de interesse real, o que é mais importante do que atrair uma atenção ampla, mas superficial.

Karina: Qual o conceito de Guilty Beat e Mood Swings?
Daniel:
No Mood Swings, todo o processo de gravação e mixagem foi pra ficar do jeito que a gente achava que deveria ficar. Tínhamos uma ideia de como deveria soar e fomos atrás disso desde o primeiro até o último momento do processo. São 11 faixas distintas que falam sobre o mesmo assunto. É um disco um pouco mais masculino e agressivo.

No Guilty Beat, a gente queria capturar o momento. Gravamos num live room, todo mundo junto, e mexemos o mínimo possível depois. Queríamos que soasse como a gente estava ali naquele período, inclusive as imperfeições. Não tem nada mais maçante do que um trabalho perfeito. São 10 músicas ligadas por uma letra só, que começa na primeira faixa e termina na última. O Guilty Beat também é agressivo, mas de uma forma mais delicada, acho.

Karina: Como foi o processo de produção do álbum Guilty Beat?
Daniel:
A gente já tinha uma música gravada em Londres e duas em Vitória, e depois disso ficamos um bom tempo trancados no estúdio de ensaio finalizando as outras faixas. Daí fomos para o Urchin Studios, e começamos a gravar todo mundo tocando junto, mas com clique. Tava ficando meio engessado e resolvemos experimentar sem clique mesmo, e ficou muito melhor, mais solto. Então o disco de uma forma geral tem composições mais elaboradas que o Mood Swings, mas a execução é mais crua. O tempo flutua, o vocal vacila, você ouve barulhos como eu pisando no pedal, sirenes passando na rua e outros ruídos que supostamente devem ser tirados do produto final, mas tentamos captar o momento o mais fielmente possível.

Depois o Larica, que é baixista, acrescentou uns detalhes de guitarra, a Jaana uns estalinhos de dedo, meia-lua e flauta, e o produtor Matt Ingram um piano elétrico. Ficar editando batera e passando auto-tune na voz não rolou nessas músicas. Acho ótimas as novas tecnologias de produção musical, mas o grande desafio eu acho que é conseguir fazer a banda soar bem como ela é, resistir à sedução dos truques tecnológicos, que prometem resolver sua vida rapidinho, sem esforço, mas deixam seu som aguado, genérico.

Karina: Com que frequência estão no Brasil? Vocês acompanham o cenário da música alternativa aqui? Se sim, quais as bandas brasileiras que acham promissoras?
Daniel:
A gente foi tocar quatro vezes no Brasil desde que chegamos na Inglaterra. Difícil dizer sobre bandas promissoras, normalmente eu gosto das que dão errado. Mas gosto muito do Fadarobocoptubarão… Tocamos num festival com o Macaco Bong e foi um dos melhores shows que vi. Tem também meus ídolos do Chico Cuíca Sound System e Zero Zero.

Karina: Vocês pretendem voltar para o Brasil?
Daniel:
Não sei, da mesma forma que viemos meio do nada, poderíamos voltar um dia do nada… ou do nada ir ficando por aqui mesmo. Vamos ver pra onde as coisas vão levar a gente.

Este texto foi originalmente publicado no Rockazine.


Veja também



Deixe um comentário