
É impossível falar das obras de Hermann Hesse sem falarmos da própria vida do autor. Nascido em 1877 na Alemanha, o escritor era filho de missionários protestantes que haviam pregado o cristianismo na Índia. Hesse estudou em um seminário, e seus pais queriam que ele seguisse uma carreira religiosa como pastor. Negando a religião cristã, Hesse quebrou os vínculos com sua família e foi para a Suíça em 1912, onde trabalhou como operário, e se dedicou a vida literária. Como escritor, Hermann Hesse ganhou em 1946 o Prêmio Goethe, e no mesmo ano, o Prêmio Nobel de Literatura.
Nas obras de Hesse, podemos perceber um tom quase autobiográfico, com passagens da vida do autor, momentos de viragem em sua forma de pensar e de enxergar o mundo. Uma temática é comum em muitos de seus contos e livros: um homem com grande potencial intelectual e espiritual nasce em uma condição onde seu destino já foi traçado. Sendo um dos melhores no que faz, ele não encontra felicidade plena em sua vida. Algumas vezes, o personagem rompe drasticamente com seu mundo como em O Jogo das Contas de Vidro, ou parte para o exílio como em muitos contos, ou passa por diversas fases de amadurecimento espiritual, como no caso de Sidarta.
Espiritualidade oriental e plenitude na vida
Sidarta foi publicado em 1922, e a obra é resultado de uma viagem que Hesse fez à Índia em 1911, onde entrou em contato com a filosofia e a religião budista. Inspirado na tradição de Siddhartha Gautama, o Buda, o livro conta a história do jovem Sidarta, filho de brâmane, que tem um futuro promissor pela sua frente. Muito inteligente e ávido por conhecimento, Sidarta é adorado por todos, principalmente por seu amigo Govinda. As pessoas que o rodeiam o olham e já enxergam um futuro sacerdote, um grande sábio. Consciente de suas qualidades, e de seu futuro, Sidarta não se sente completo. Ele não entende a necessidade dos rituais e dos sacrifícios, questiona se o mundo realmente foi criado por deuses, e por que deveria ele adorá-lo, sendo que no fim, o que contava mesmo era o Átman, símbolo do único e do indivisível na filosofia budista.
Sabendo que este não é seu destino, Sidarta deixa sua vida de brâmane para trás, e passar a viver com um grupo de samanas, homens que jejuam e meditam, vivendo das esmolas dos outros. Com ele vai Govinda, e por três anos, os dois jovens se dedicam unicamente a se tornar vazios, escondendo todo sentimento e dor, achando que assim atingiriam o Um.
Sidarta ainda não se sente completo, e abandona os samanas quando ele e Govinda descobrem que o Buda estava espalhando sua doutrina entre os homens. Eles vão de encontro ao homem, que se chama Gotama, e escutam a sua palavra. Govinda se entrega a filosofia do Buda, e se torna um de seus seguidores. Para Sidarta, doutrina nenhuma lhe servirá, e ele abandona o amigo em busca de sua própria filosofia.
E assim o livro segue, entre descobrimentos pessoais de Sidarta, questionamentos sobre a filosofia budista e qual o método seria o melhor para ele também atingir a plenitude espiritual, se é que algum método existisse. A vida de Sidarta é composta de fases, onde ele vivencia os extremos de tudo: a privação completa como samana, depois a abundância exagerada como comerciante rico. Entre reviravoltas, Sidarta consegue encontrar sua paz interior e plenitude de sua vida.
Mais de Herman Hesse
Quando terminamos Sidarta, não podemos deixar de pensar na vida de Herman Hesse, que como seu personagem, abandonou seu destino traçado, foi buscar no Oriente sua orientação espiritual, e acabou vivendo de sua própria filosofia de vida.
Para quem se interessou pelo assunto, são leituras indispensáveis o já mencionado O Jogo das Contas de Vidro, e diversos contos do autor, que em seus questionamentos, não deixa nunca de ser atual.
Sidarta
Hermann Hesse
Editora Record
160 páginas












