A Varanda do Frangipani

O livro se passa vinte anos após a independência de Moçambique, e nos traz como narrador o carpinteiro Ermelindo Mucanga, que morreu nos primeiros anos da independência, e se vê transformado em “xipoco”, fantasma que não consegue morrer por não ter sido enterrado e velado de acordo com as antigas tradições africanas. Mucanga “vive” embaixo de uma árvore de frangipani, típica de Moçambique, em uma antiga fortaleza colonial, quando descobre que o Governo pretende transformá-lo em herói nacional, para forjar uma nova identidade ao país que recentemente se tornou independente.

Para evitar a mentira, Mucanga decide remorrer, e seguindo os conselhos de seu pangolim, um espírito ancestral que tem forma de um animal escamoso, ele reencarna no corpo do inspetor de polícia Izidine Naíta, que de acordo com o animal morrerá em cinco dias. A fortaleza colonial, que se transformou num asilo de idosos, é palco de um crime: mataram o diretor do asilo, Vasto Excelêncio. Por isso se faz necessária a presença de Izidine Naíta, que conduzirá uma investigação para descobrir como o diretor foi assassinado.

O livro é divido em capítulos que se intercalam entre o depoimento de um velho do asilo, e a narração de xipoco, que retrata como ele está encarando esta sua nova vida, e como o inspetor de policia reage a cada entrevistado. Os depoimentos são construídos a partir da visão de cada velho, cada qual com sua verdade, baseada em antigas tradições africanas, e também marcadas pela história sangrenta do país. Característica constante nos livros de Mia Couto, a fortaleza isolada do mundo representa um dos últimos lugares onde a tradição vive, e o inspetor, um moçambicano da cidade, deve entrar em contato com este mundo, pois ele está morrendo junto com os velhos do asilo.

Podemos dizer que Mia Couto é um defensor da tradição, mas não da tradição num sentido paralisante, estático, apático, mas uma tradição que dá vida, que revigora, e que como um impulso, dá sentido à identidade de um povo.

A Varanda do Frangipani
Mia Couto
Cia. das Letras
152 páginas


Veja também



Responda o questionário e ajude a construir São Paulo

Deixe um comentário