Gênesis

O último trabalho de Robert Crumb, Gênesis, nos traz uma das histórias mais antigas, e também das mais conhecidas da História do Ocidente. Relato fiel dos textos originais do Antigo Testamento,  assistimos a Criação do Homem, a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, o Grande Dilúvio e a Arca de Noé, e as linhagens do povo escolhido que descendem de Abraão.

Logo na introdução do livro, Crumb já deixa bem claro os objetivos deste projeto: ilustrar, de forma quase que histórica, as histórias do livro do Gênesis. Os textos são uma reprodução fiel dos textos originais, baseadas em traduções recentes de Robert Alter. Crumb ressalta que a maioria das HQs que se aventuraram em fazer versões da Bíblia, ou proclamaram que aquele texto era a “palavra de Deus”, ou tentaram modernizar os textos, introduzindo diálogos e alterando as velhas escrituras. Robert Crumb não faz nenhum dos dois: acredita primeiramente que os textos do Gênesis são produtos do Homem, que foram modificados e alterados ao longo de gerações, até o momento em que lhes foram dados um caráter divino, para fundarem e estabelecerem um poder religioso e político. Mesmo assim, Crumb não tira do texto todo seu poder simbólico de nossa consciência coletiva e histórica. Em relação aos textos, Crumb foi fiel à narrativa original, e o resultado é um texto narrativo, sem diálogos, onde as ilustrações de Crumb apenas representam, ao seu olhar, o que está sendo dito.

Se tratando de um tema religioso, e de um texto venerado por tantas pessoas, Crumb diz de antemão que sua intenção não é ridicularizar as histórias bíblicas. E de fato é isso o que acontece, portanto aqueles acostumados com a acidez que o autor utiliza para tratar alguns assuntos poderão se surpreender.  O mais interessante de Gênesis de fato é o tratamento e a dedicação do autor em ilustrar cada história da Bíblia, se preocupando com as vestimentas, e com a arquitetura de um mundo de milênios passados. Crumb se mostra um verdadeiro conhecedor da matéria!

Para aqueles que estão ingressando no mundo das HQs, Gênesis pode ser um salto precipitado. O texto é pesado e cansativo (como não poderia ser de outro jeito, afinal estamos falando de algo escrito há milênios), e o que vale a pena mesmo é o traço do autor. Já para aqueles que são fãs do ilustrador, ou que se interessam pela temática bíblica, Gênesis com certeza será apreciado (apesar das ressalvas de que em termos de conteúdo, os trabalhos anteriores do autor são melhores).

É interessante acompanhar histórias que fazem parte de nosso imaginário coletivo, mesmo se nunca abrimos uma Bíblia! No livro do Gênesis assistimos a duas versões diferentes da criação do Homem, e vemos a existência de um Deus que é mais temido que amado, e que castiga aqueles que não o seguem. As ilustrações de Crumb, todas em preto e branco, são de uma crueza que dão força de realidade às histórias. A precisão histórica e o perfeccionismo nos detalhes são de fato o grande destaque da obra!

A edição da Conrad é de ótima qualidade, com capa dura, papel de qualidade, notas da tradução brasileira, e comentários do autor sobre alguns capítulos no final do livro.

Como era de se esperar, o livro causou controvérsia em seu lançamento. Muitos se sentiram ofendidos com as interpretações visuais do autor, alegando uma excessiva sexualidade. A verdade é que Robert Crumb foi bem ponderado em suas ilustrações, com apenas algumas cenas com sexo implícito. Aqueles que conhecem o trabalho do autor, cheios de nudez e drogas, poderão dizer que ele foi até suave demais! Mas como o próprio autor nos confessa na introdução, não dá para agradar a todo mundo!



Gênesis

Robert Crumb
Editora Conrad
224 páginas


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